quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cividade de Terroso


A Cividade de Terroso foi um importante povoado da cultura castreja do noroeste da península Ibérica, localizado na Póvoa de Varzim, Portugal.
A Cividade, conhecida na Idade Média como Montis Teroso, foi erigida no topo do monte da Cividade, na freguesia de Terroso, na Póvoa de Varzim, a menos de 5 km da costa, no limite nascente da cidade contemporânea.
Situada no coração da região castreja, a Cividade prosperou devido a estar fortemente amuralhada e pela sua localização próxima ao mar que possibilitava o comércio com as civilizações do mar Mediterrâneo. Este comércio atraiu os olhares dos Romanos; a cividade e a cultura castreja pereceram no final da Guerra Lusitana ganha por Roma através do assassinato à traição de Viriato, líder lusitano que chefiava os interesses indígenas.

O povoamento da Cividade de Terroso foi construído no decurso da Idade do Bronze, entre os anos 900 e 800 a.C., como consequência da deslocação das populações residentes na planície fértil de Beiriz e na Várzea da Póvoa de Varzim. Isto é suportado pela descoberta de fossas ovóides, escavadas em 1981 por Armando Coelho, tendo sido recolhidos fragmentos de quatro vasos do período anterior ao início do povoamento da cividade.
O castro manteve relações comerciais com as civilizações do mediterrâneo, principalmente durante o domínio cartaginês do sudeste da Península Ibérica.
Durante as guerras púnicas, os Romanos tomaram conhecimento da riqueza da região castreja em ouro e estanho. Viriato, que liderava as hostes lusitanas, impedia o crescimento do Império Romano para o Norte do rio Douro. No entanto, o seu assassinato em 138 a.C. abriu caminho para as legiões romanas.
Décimo Junio Bruto liderou uma campanha para o domínio da região castreja, acabando por destruir a Cividade por completo, logo após a morte de Viriato. Os feitos do comandante romano ecoaram em Roma, onde passou a ser conhecido pelo cognome Callaicus - de Gallaecia, por ter sido o primeiro a vencer os Calaicos (Kallaikoi).
Algum tempo mais tarde, a Cividade foi reerguida e fortemente romanizada, dando assim início à última fase urbana do castro.
A região é incorporada no Império Romano e totalmente pacificada durante o domínio de César Augusto. Na planície litoral, é criada uma villa romana, propriedade de uma família romana, os Euracini a que se terá juntado o povo castrejo que regressaram à vida na planície - assim terá surgido Villa Euracini. A actividade piscatória desenvolveu-se com a cetariæ, um complexo fabril romano de salga e transformação de pescado. Assim, partir do século I da nossa Era e durante o período imperial dá-se o progressivo abandono da Cividade.
A característica mais típica dos castros é a sua fortificação. Os habitantes terão escolhido passar a viver no monte como meio de protecção contra os saques e pilhagens levados a cabo por tribos rivais. A cividade foi erigida a 152 metros de altitude, o que permite uma excelente posição de vigilância de toda a região. Um dos lados, a norte, estava bloqueado pelo monte de São Félix, onde terá surgido um castro, o Castro de Laundos, que terá servido de posto avançado.
As movimentações de Túrdulos e Célticos provenientes do Sul da Península Ibérica em direcção a Norte são referidas por Estrabão e terão motivado a melhoria dos sistemas defensivos dos castros por volta de 500 a.C.

Arquitectura e Sociedade

A Cividade de Terroso é um dos castros mais fortemente fortificados, dado que a acrópole estava circundada por três cinturas de muralhas. Estas muralhas terão sido construídas em momentos diferentes, devido ao crescimento do próprio povoado.
As muralhas eram compostas de grandes blocos sem argamassa e estavam adaptadas às características dadas pelo relevo do monte. As faces de acesso mais fácil (Sul, Este e Oeste) possuíam muralhas altas, largas e resistentes; enquanto as que se encontravam em terreno com declives abruptos eram menos cuidadas, limitando-se a reforçar as particularidades locais.
Isso pode ser facilmente visível com as estruturas descobertas a Este que apresentam um forte sistema defensivo que atinge 5,30 metros de espessura. Enquanto que a Nordeste, a muralha foi construída aproveitando o granito natural que foi apenas coroado por um muro de pedras.
A entrada, que interrompia a muralha, apresenta um lajeado de cerca de 1,70 metros de largura. O perímetro defensivo parece ter sido complementado por uma vala de cerca de 1 metro de profundidade e outro de largura no sopé do monte, conforme foi detectado aquando da construção de uma casa a norte do monte.
Estrutura urbana

Planta da Cividade de Terroso
No interior dos três anéis de muralhas, na acrópole existem ainda ruínas de grande diversidade, de destacar os recintos funerários, que são extremamente raros no mundo castrejo.
Cada um dos quadrantes da Cividade está dividido em núcleos em torno de um pátio familiar quase sempre lajeado e divididos por duas ruas principais que se cruzam. Algumas casas possuíam um átrio.
No seu apogeu, a cividade teria perto de 12 hectares e habitavam nela várias centenas de pessoas.




Núcleo familiar da Cividade de Terroso

Casas da Cividade
A Cividade passou por várias fases de urbanização: durante os primeiros séculos, as pequenas habitações eram construídas à base de elementos vegetais misturados com barro.
As primeiras construções em pedra só começaram a tomar forma no século V a.C., material que passou a ser utilizado devido ao progresso tecnológico com o fabrico de picos de ferro, uma tecnologia que só estava disponível na Ásia Menor, mas que acabou por ser trazida para a Península Ibérica com a colonização fenícia no Litoral Atlântico durante os séculos VIII e VII a.C.
As construções desta época são, caracteristicamente, circulares com diâmetros entre 4 e 5 metros e com paredes com 30 a 40 cm de espessura. As pedras de granito eram fracturadas ou lascadas, para posteriormente serem posicionadas em duas fiadas, com a face mais lisa para o exterior e interior da casa. O espaço entre as duas pedras era preenchido com pequenas pedras e argamassa de saibro dando uma estrutura robusta às paredes.
Na última fase da Cividade, a fase romana (com inícios em 138-136 a.C.), após a destruição por Décimo Junio Bruto, dá-se uma reorganização urbana com recurso a novas técnicas construtivas e alteração de formas e dimensões. Principalmente com o aparecimento de estruturas quadrangulares, em substituição das circulares tipicamente castrejas. As coberturas deixam de ser de origem vegetal e passam a ser feitas com tegula.
As pedras usadas nesta fase para a construção das habitações eram quadrangulares; mantendo-se o esquema de duas fiadas, mas o espaço interior era mais largo e preenchido por saibro ou barro e pedras de pequeno ou médio tamanho, resultando em paredes mais espessas com 45 a 60 cm.
Núcleos familiares
Os núcleos familiares, compostos de quatro a cinco divisões circulares, envolviam um pátio lajeado para onde convergiam as portas das diferentes divisões. Estes pátios centrais tinham papel importante na vida familiar e eram onde se desenrolavam as actividades diárias familiares. Estes núcleos seriam fechados à chave, revelando a preocupação pela privacidade das famílias.
O interior das construções da segunda fase, anterior à romana, possuía pisos finos de barro ou saibro. Alguns destes pisos eram decorados com a impressão de cordas, desenhos ondeados e impressão de círculos, especialmente nas lareiras. Na fase de influência romana, estes pisos tornaram-se mais cuidados, densos e espessos.

O Cardium era uma das vias principais do povoamento.
Os núcleos familiares eram divididos por arruamentos estreitos com espaços algo públicos. Os dois arruamentos principais tinham a orientação típica romana do Decumanus e Cardium. O Decumanus era um arruamento que seguia da muralha a Nascente para Poente e flectia-se ligeiramente para Sudoeste a partir do encontro com o Cardium (arruamento Norte-Sul), terminando na entrada da Cividade. O acesso exterior realizava-se por uma delicada descida até ao caminho que ainda hoje é utilizado para aceder à cividade.
Estes arruamentos principais dividiam o povoado em quatro partes. Cada uma dessas partes era composta por quatro a cinco núcleos familiares.
Em alguns pontos da Cividade foram descobertos vestígios de esgotos ou caneiros que serviriam para encaminhar as águas das chuvas.

A população dedicava-se à agricultura de cereais e leguminosas, pesca, recolecção, pastorícia e trabalhavam os metais, os têxteis e a cerâmica. Do interior da Península Ibérica chegaram influências culturais, para além das provenientes do mediterrâneo através dos comércio.
A cultura castreja reconhecida pelos seus povoados amuralhados, com casas circulares no topo de montes e pela sua cerâmica característica e bastante difundida entre eles termina com a aculturação romana e com a movimentação das populações para a planície litoral, onde a forte presença aculturadora dos romanos, a partir de século II a.C., é visível nos vestígios das villas romanas aí encontradas onde se localiza actualmente a cidade da Póvoa de Varzim (Vila Velha da Póvoa, Alto de Martim Vaz e Junqueira), na freguesia da Estela (Vila Mendo) e junto à Capela de Santo André em Aver-o-Mar.



Alimentação

A população subsistia da agricultura, mas também se alimentava de frutos-do-mar, criava e caçava animais.
A população vivia principalmente dos proveitos tirados da agricultura, nomeadamente com o cultivo de cereais como o trigo e a cevada, e de leguminosas (a fava) e a bolota.
O concheiro encontrado na Cividade mostra que comiam lapa, mexilhão e ouriço do mar crus ou cozidos. Espécies que são ainda hoje bastante comuns. A pesca não deverá ter sido regular, dada a falta de evidências arqueológicas, mas a descoberta de anzóis e pesos de rede revela que já pescavam peixes de tamanho considerável como a Garoupa, o Sardo e o Robalo.
A cevada era cultivada para produzir uma espécie de cerveja, que seria apelidada de zythos. A cerveja era desconsiderada por gregos e romanos que consideravam essa bebida de bárbaros, dado que estavam habituados ao requinte dos vinhos. A bolota era triturada para criar uma espécie de farinha.
A recolecção de plantas selvagens, frutos, sementes e raízes era um complemento para a alimentação. Comendo e recolhendo amoras silvestres, dentes-de-leão, trevos e até algas marinhas. Alguns destes vegetais são ainda usados pela população local. Os romanos introduziram o hábito do consumo do vinho e do azeite. Os animais usados pelos castros, conforme documentos clássicos e registos arqueológicos, confirmam a existência de cavalos, porcos, vacas e ovelhas que seriam aproveitados em todas as suas capacidades. De notar que devido a um estatuto na sociedade, os cavalos, tal como os cães, não eram utilizados para a alimentação.
As aves de galinheiro estão pouco documentadas durante o período castrejo, mas tornaram-se frequentes durante o período romano.
Apesar de estar também pouco documentada na Cividade, a caça deve ter sido algo usual dado que se sabe a partir de fontes clássicas, tais como Estrabão e Plínio que a região era bastante rica em fauna, desde cavalos selvagens, ursos, veados, corços, javalis, raposas, castores, coelhos, lebres e variadas aves, e que seriam uma fonte de alimentação acessível e rentável.

Artesanato 

A cerâmica castreja (taças e vasos) também foi evoluindo ao longo dos tempos, com a passagem de um sistema primitivo para o uso das rodas de oleiros. No entanto, as ânforas e o uso do vidro só passaram a ser comuns com a romanização. Estas ânforas serviam essencialmente para o transporte e armazenagem de cereais, frutos, vinho e azeite.
As cerâmicas encontradas na Cividade de Terroso tinham, muitas delas, identidade própria. A olaria era vista como um trabalho masculino e foram encontradas em grande número e em grande variedade, mostrando que era um produto barato, importante e acessível.
Contudo, as formas das cerâmicas da Cividade, são praticamente idênticas às encontradas em outros castros do mesmo período. A decoração dos vasos era do tipo incisivo, embora existissem também vasos espalutados e estampilhados. Aparece também a aplicação de cordões de barro, em forma de corda, revestidos ou não de incisões.
Nos vasos estampilhados são frequentes os desenhos em "S", designados de palmípedes, que poderiam ser acompanhados por outros motivos estampados ou incisos. Outras formas decorativas, que podem aparecer misturadas e com técnicas diversas, incluem círculos, triângulos, semicírculos, linhas, em zigue-zague, num total de cerca de duas centenas de motivos diferentes.
A tecelagem era bastante generalizada e era vista como uma obrigação feminina e também foi progredindo, em especial no período romano, tendo sido encontrados alguns pesos de tear e dezenas de cossoiros. A descoberta de tesouras veio reforçar a ideia da criação sistemática ovelhas por forma a aproveitar a lã.


Metalurgia

Foram detectados numerosos vestígios de actividades metalúrgicas e descobertas grandes quantidades de escórias de fundição, fíbulas, fragmentos de objectos em ferro e resíduos de outros metais, sobretudo chumbo, cobre/bronze, estanho e possivelmente ouro. Foram encontrados "gatos" para reparação de cerâmicas, alfinetes, fíbulas, stili e agulhas em cobre ou bronze, revelando que o trabalho em bronze e suas ligas era uma das actividades mais comuns da Cividade. O ferro era usado para muitos objectos do dia-a-dia, foram encontrados vários pregos, anzóis, ganchos e uma ponta de uma foice ou punhal.

Junto à porta da muralha (no sudoeste do povoado) foi identificada uma oficina, dado que no local foram encontrados vários vestígios desta actividade tais como pingos e escórias de fundição de vários metais, minérios e outros sinais, designadamente a utilização do fogo com altas temperaturas.

A ourivesaria contribuiu para a imagem da Póvoa de Varzim como um dos locais de referência da arqueologia Proto-Histórica do Noroeste peninsular. Nomeadamente com o achado das arrecadas de Laundos e do colar articulado e arrecadas da Estela. Na Cividade foram recolhidos alguns testemunhos do trabalho em ouro e prata por Rocha Peixoto. Em toda a serra de Rates são visíveis as explorações mineiras ancestrais: castrejas e romanas, dado que esta serra possuía ouro e prata essenciais para o fabrico de jóias.

Em 1904, um pedreiro enquanto construía um moinho no topo do Monte de São Félix, perto do pequeno Castro de Laundos, encontra um púcaro com jóias lá dentro, estas jóias foram compradas por Rocha Peixoto que as levou para o Museu do Porto. As jóias revelaram o uso de uma técnica evoluída, muito semelhante ao que era feito no Mediterrâneo, nomeadamente com o uso de placas e soldas, filigrana e granulados.

Religião e rituais funerários

O povo castrejo adorava uma diversidade de divindades. As cerimónias e cultos religiosos tinham como objectivo a harmonia entre o povo e as forças da natureza.
Algumas fossas, por exemplo organizadas como um pentágono, adornam o lajeado da Cividade; a sua função é desconhecida, mas supõe-se que terão alguma função mágico-religiosa.
O ritual funerário da Cividade, comum a outros povos pré-romanos do território português, consistia no rito da incineração, depositando-se as cinzas dos seus mortos em pequenas fossas circulares com paramentos de alvenaria no interior das casas.
Posteriormente, as cinzas passaram a ser depositadas no exterior das casas, mas dentro do núcleo familiar.
Em 1980, a descoberta de uma cista funerária, e de um vaso inteiro acampanado e fragmentos de outro sem cobertura evidenciam violação. Este vaso era muito semelhante a um outro encontrado em Laundos, este último com um jóias no seu interior, o que supõe que estas jóias tinham o mesmo contexto funerário.





Comércio

As visitas de Fenícios, Cartagineses, Gregos e Romanos tinham como o objectivo a troca de tecidos e vinho por ouro e estanho, apesar da escassez de vias terrestres, esse não era um problema para a Cividade de Terroso que se localizava estrategicamente perto do mar e do Rio Ave, existindo assim um extenso comércio por via atlântica e fluvial. Contudo por via terrestre era conhecida a Via da Prata (nome da época romana) que era um caminho interior que seguia do sul da península até ao nordeste.
O comércio externo, dominado pelo estanho, era complementado com comércio interno nos mercados tribais entre as diferentes cidades e aldeias da cultura castreja que trocavam téxteis, metais (ouro, cobre, estanho e chumbo) e outros objectos incluindo produtos exóticos, tais como vidro ou cerâmica exótica, provenientes dos contactos com povos do Mediterrâneo ou de outras áreas da Península.
Com a anexação da região castreja ao Império Romano, o comércio passa a ser um dos principais meios para o desenvolvimento económico regional, com os mercadores romanos organizados em associações denominadas collegia. Estas associações funcionavam como verdadeiras empresas comerciais que procuravam o monopólio nas relações comerciais.
Não se sabe o momento em que se começou a utilizar o sistema monetário, dado que as áreas mais antigas ainda estão pouco estudadas. Não se sabe ao certo se nas escavações de 1906 foram achadas moedas, apesar disso ter sido provável, não foram identificadas moedas provenientes dessa escavação. Existem apenas um conjunto de moedas romanas do século III - IV a.C. que, tradicionalmente, é considerado como proveniente da cividade de Terroso.

Fontes:
Cividade de Terroso na base de dados do IGESPAR
Bibliografia
SILVA, Armando Coelho Ferreira da, "A Cultura Castreja no Noroeste de Portugal"", Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira, 1986.
GOMES, José Manuel Flores e CARNEIRO, Deolinda, "Subtus Montis Terroso - Património Arqueológico no Concelho da Póvoa de Varzim", Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 2005.
Póvoa de Varzim, Um Pé na Terra, Outro no Mar…
Textos de apoio
Roteiro Arqueológico do Eixo Atlântico (em formato PDF)
A Cultura Castreja no Norte de Portugal (em formato PDF)
Portal da Póvoa de Varzim -Cividade de Terroso
Cividade de Terroso Castrenor

terça-feira, 7 de maio de 2013

Citânia de Sanfins

Surgiu por volta do séc. I a. C. e estende-se por cerca de 15 hectares. As mais de centena e meia de construções de planta circular e quadrangular, agrupadas em cerca de 40 conjuntos de unidades domésticas, estão protegidas por várias ordens de muralhas.

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Vista aérea da Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira.
Todas estas construções estão organizadas de forma notável, numa estrutura regular com arruamentos ortogonais. A Citânia de Sanfins é uma das estações arqueológicas mais significativas da cultura castreja do Noroeste peninsular.
Ocupando uma colina com extensa plataforma central, aparece integrado no perímetro de montanhas de meia altitude em afloramentos graníticos vindos desde os montes da Agrela em direcção a Norte.
A vasta panorâmica sobre toda a região de Entre-Douro-e-Minho, que dela se abrange, terá sido factor estratégico determinante do desenvolvimento deste importante povoado.
A observação das suas áreas de influência permite questionar a formação deste “lugar central” no quadro da rede de povoamento castrejo regional.
Tudo indica ter sido escolhido, na sequência da campanha militar de Décimo Júnio Bruto (138-136 a.C.) até à ocupação romana do Noroeste (29-19 a.C.), como capital dos povos Calaicos, dos Brácaros, situados na margem direita do Douro.
O grande aglomerado da Citânia terá resultado da congregação de diversas comunidades limítrofes por motivos estratégicos sequentes à campanha de Décimo Júnio Bruto, desempenhando, então, o lugar de capital regional (fase II).
Tendo-se transformado num castro reduzido, simples aldeia, kóma, segundo Estrabão, com a conquista do Noroeste pelos exércitos de Augusto, ocupava apenas a plataforma limitada pela muralha central, onde se procedeu a uma profunda reestruturação urbana em função do fomento da actividade metalúrgica (fase III).
Com as reformas flavianas praticadas na região, terá entrado num período de declínio, com uma população cada vez mais diminuta a cultivar os campos das imediações, até ao seu abandono em meados do séc. IV (fase IV).
O cemitério cristão implantado na sua acrópole e a capela de S.Romão que se lhe sobrepunha documentam uma fase datada da Baixa Idade Média (fase V), já sem qualquer relação de carácter cultural com a Citânia a não ser como reconhecimento de uma ancestralidade, de que estes traços de natureza religiosa são a melhor evocação.
No centro do povoado a imagem tutelar de um guerreiro vigia e protege a povoação. Nesta zona encontram-se também construções de cariz religioso, onde foram encontrados objectos de natureza cúltica.

O balneário

«...Dizem que alguns povos que habitam junto do Douro vivem à maneira dos espartanos: untam-se com óleo duas vezes (por dia) em lugares especiais e praticam o banho de vapor, que fazem com pedras aquecidas pelo fogo e (depois) tomam banho de água fria... »
Estrabão, Geografia, III, 3, 6
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Banhos da Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira.

No sopé do povoado destaca-se uma construção de banhos, abastecida por uma nascente de água. Podiam-se tomar banhos de água fria, mas também banhos de vapor, graças a um forno que aquecia a água vinda da nascente.
A norte, já fora da área da citânia, um penedo com uma inscrição em latim remete para a comunidade castreja de Sanfins.

O guerreiro

 


A fase proto-urbana de grandes povoados castrejos como a Citânia de Sanfins supõe a existência de um poder central patente na unidade do seu ordenamento urbano, nas suas estruturas defensivas e de serviços públicos, podendo sugerir-se como chefes desta unidade organizativa figuras militares como a(s) que temos representada(s) na(s) estátua(s) de guerreiro da Citânia que ocupavam uma posição de evidente significado tutelar.
Apresentando no seu conjunto um canôn iconográfico que ilustra a generalidade a passagem de Estrabão, Geografia, III, 3, 6 sobre o tipo de guerreiro indígena, a sua figura aparece-nos erecta, em posição de parada, ostentando a cabeça protegida por um capacete, que retrata com fidelidadee alguns dos capacetes de bronze conhecidos na região, torques (colar) típico em torno do pescoço e viriae (braceletes) assim como um pequeno escudo redondo (caetra) na posição central comum a este tipo de estatuária. A destruição desta estátua, ou de outra congénere já anteriormente aparecida, em fragmentos, no interior de um edifício sagrado, relacionada com duas aras votivas, romanas, é uma interessante denúncia das vicissitudes por que passou a Citânia com os sucessos da romanização.

Escavações

 

As escavações iniciaram-se em 1944, e desde então foram retomadas por diversos arqueólogos. Hoje a Citânia de Sanfins é uma importante estação arqueológica.
A Citânia de Sanfins é, após meio século de escavações sistemáticas, uma das estações arqueológicas mais significativas da cultura castreja no Noroeste peninsular. Está classificada como Monumento Nacional.

Museu

 

Quem passa por esta estação arqueológica tem – obrigatoriamente – que passar pelo Museu Arqueológico da Citânia, onde se podem encontrar, além de outras peças, o espólio das escavações.

Fonte:
http://arqueo.org/ferro/sanfins.html

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Citânia (castro) de Santa Luzia 



A “cidade velha de Santa Luzia”, localiza-se no topo de uma colina, com um belíssimo domínio estratégico sobre a paisagem envolvente, abrangendo a costa Atlântica, o rio Lima e a zona montanhosa interior.
No Séc. 8 a.C. era já habitada, mas o seu grande desenvolvimento deu-se com a romanização da região, tendo mantido uma ocupação pelo menos até ao séc. 5, o que é sugerido por ter sido encontrado um conjunto de moedas dessa altura.
O castro, dispunha de um importante sistema defensivo, dotado de três linhas de muralhas e dois fossos.
 
A muralha interior, a que se encontra melhor conservada, dispunha de torreões de reforço (foto ao lado), no lado Norte, por onde o acesso ao povoado era mais fácil.
A terceira muralha, tal como uma grande área do castro a Sul, Sudoeste, foram bastante destruídas pela exploração de quartzo, abertura de estradas e construção do reservatório de água, pousada e jardins e santuário (há vestígios de habitações nas proximidades da Basílica de Stª Luzia).
As habitações estavam estruturadas em quarteirões, separados por muros de divisão e dotados de caminhos em lajeado. As casas seriam redondas ou elípticas, com e sem alpendre, e, nalguns casos mais ou menos rectangulares.  
Os pavimentos eram de saibro ou terra argilosa batida e existem vestígios de lareiras e de bancadas circulares ao longo das paredes.
A existência de uma pedra no centro das casas  revela que a sua cobertura seria de materiais ligeiros com um apoio central.
Algumas casas têm fornos, escoadouro para a água da chuva e várias têm no exterior pias que poderiam ser bebedouros para o gado.
É famosa uma unidade habitacional construída com paramentos de aparelho helicoidal (em baixo), que constitui uma das mais belas unidades domésticas castrejas conhecidas.

No centro, existe uma pequena acrópole murada de que não se conhecem as funções.
Tal como noutros castros desta zona, em Santa Luzia encontram-se sobreposições das edificações, revelando que um primeiro castro foi destruído por um grande incêndio (Décimo Júnio Bruto, lembram-se?).
Além de uma função defensiva e protectora, em colaboração com os outros castros da envolvente e faixa marinha (São Paio, Terroso e São Lourenço), por exemplo, este povoado estaria também relacionado com o “comércio atlântico”. A vida diária estaria ligada à agro-pecuária e ao aproveitamento de frutos como a castanha e a bolota e dos recursos marinhos e fluviais, complementada por actividades artesanais de cerâmica, metalurgia, fiação e tecelagem.

O castro localiza-se por trás da pousada e basílica de Santa Luzia, facilmente detectáveis no monte que domina a cidade de Viana do Castelo. Para apoio à visita foram construídos passadiços sobre-elevados (nalguns sítios ocultam algumas das referências interessantes), mas recomendo que, se puderem, não se limitem aos caminhos definidos por esses passadiços.
Fontes: www.ippar.pt, www.monumentos.pt, www.castrenor.com, Guia de visita

sexta-feira, 22 de março de 2013

Citânia de Briteiros

 



Situada em parte da freguesia de São Salvador de Briteiros, e na de S. Bento de Donim, do concelho de Guimarães, assentam as ruínas deste povoado primitivo, num esporão pertencente ao maciço horográfico que se destaca da Serra Amarela. O seu nome deve ter origem segundo o historiador vimaranense Alberto Sampaio, na antiga Villa de Briteiros, pois teria sido um Fundus Brittarius, designação derivada de Brittus, nome pessoal hispânico, portanto topónimo adquirido aquando da dominação romana. É conhecido também o lugar das ruínas por Monte de São Romão, por ter ali sido edificada, em tempos uma capela, da qual são visíveis ruínas junto do cruzeiro, documento e que “…constituem por ventura o testemunho da primitiva cristianização do lugar, na decadência do império romano”. Num documento do ano 1059, extraído do Cartulário “Livro de Mumadona”, é referida esta capela, que no entanto não é actual, viso que esta foi reconstruída em 1853. Junto ao alicerces visíveis da primitiva ermida, e em torno do cruzeiro, encontram-se algumas pequenas sepulturas que vem atestar a tese da cristianização, logo portanto posteriores às ruínas iniciais. Julga-se que este povoado deve datar, pelo menos de 5 séculos A.C. e era constituído por um grande povoado primitivo, fortificado, celtibérico, e que sendo romanizado, um oppidum (fortaleza), pertence ao “ tipo geral dos chamados castros do Noroeste da Península Hispânica”.

 Há autores que distinguem entre castros e citânias, dando este último nome a cidades amuralhadas, com ruínas de habitações permanentes. Está neste caso as ruínas da povoação que estamos a tratar e não como as do próximo castro de Sabroso que seria, talvez, uma simples posição fortificada, sem vestígios de moradas, possivelmente, como hoje é vulgar dizer-se, “uma guarda avançada” de defesa à Citânia. Quanto aos seus primitivos habitantes, é tão obscuro determinar-se quem seriam, que nos devemos contentar, de um modo genérico, que talvez pertencessem ao grupo dos callaeci bracari ( galaico-brácaros). Parece que a estes primitivos, pela onomástica e pelas inscrições em que aparecem em alguns toponímicos de pessoas e deuses, alguns linguistas, também os tem apelidado de célticos, opinião que não é de desprezar pois sabemos que das nossas origens ancestrais faz parte o povo céltico que fundindo-se com os iberos, deram origem aos celtibéricos. No que, porém, geralmente admitido é que os variados povos desta região, provavelmente originários de um mesmo tronco pré-celta (ligures ?) que, no entanto se ignora qual fosse, estavam, politicamente divididos em tribos, normalmente constituídas por agrupamentos familiares, ou clans, cuja índole guerreira fazia com que frequentemente se gladiassem.



A filiação étnica dos Lusitanos ainda hoje, é um problema obscuro. Os Lusitanos aparecem pela primeira vez na história, como mercenários ao serviço dos Cartagineses de Aníbal no século III A.C. São várias as opiniões sobre o povo que outrora habitou a Citânia mas, aquela que mais se pode admitir, hipoteticamente, com fundamento em esquemas etnológicos parece que descenderia dos Draganos ou dos Oestrímnios, do Noroeste da Península, de raça Ligure, oriunda do Norte de África. (1) Abstraindo da questão ligúrica, a “pré-celticidade” do Lusitanos, defendida por Martins Sarmento, não podemos negar a cultura céltica que nesses povos deixou bem vincada a sua marca.

 O povoado da Citânia tem na direcção N-S cerca de 250 metros de extensão e cerca 150 no sentido E-O. Perto ou junto ao local onde está implantada a Capela de São Romão, há um pequeno espaço quase plano com cerca de 80 metros quadrados, onde estaria a necrópole do velho povoado. A Citânia é cortada por duas ruas principais: uma que seria possivelmente a entrada principal e que corre a meia encosta, no sentido sul a norte, virando depois para Noroeste, pelo colo que separa os dois outeiros em que situa o povoado; a outra, a poente, cuja direcção segue pela crista do monte, pelo norte a sul, cruza com a primeira. De largura variável, entre 2 a 2,5 metros, tem a via, norte-sul, ao seu lado, caleiras de pedra, para o transporte de água, que nascendo num aglomerado penhascoso, levava a preciosa linfa para uma fonte. Esta nascente hoje está extinta. Outras vias secundárias, mais estreitas, por se perderem os vestígios, não é possível estabelecer a ligação com as mútuas, mas desembocam em pracinhas, algumas delas cuidadosamente pavimentadas, que dividem o aglomerado populacional em vários quarteirões.



 A Citânia, era fechada, pelo aspecto actual, em três circuitos de muralhas, uma a sul, outra a poente e a terceira a norte, já que a nascente, o terreno íngreme, com um grande declive, era uma defesa natural. Hoje, há autores que dizem que provavelmente existiam mais duas muralhas. Mas o que é certo, é que só agora é possível, localizar três. Quem se dirige à Citânia, partindo do Bom Jesus, quilómetros andados, poucos, depara-se junto à estrada com uma e depois, visíveis, mais as duas. Cálculos, bastantes optimistas, dão como a sua altura máxima 5 metros. Quanto à espessura média, pelos vestígios, devia andar pelos 2 metros. A distância entre as muralhas, regulava entre os 30 metros, em certos pontos entre a exterior e a interior, mas a média podemos situá-la a cerca de 40. No entanto esta distância era irregular, pois em determinados locais chegava a atingir 100 metros. Para a construção foi utilizado um aparelho de pequenos blocos de granito, apesar de que junto a uma porta do lado poente, os blocos utilizados serem maiores. Citânia 2 A norte, o lado mais vulnerável da povoação, existia um outro muro, no sentido perpendicular à muralha exterior que contornando um pequeno outeiro, seria, certamente, uma muralha acessória ou “cortina avançada”.

Ao penetramos na Citânia, depois de ultrapassada a Casa do Guarda ( hoje foi substituída por outra construção ) pelo lado do SE, vamos deparar com “humilde monumento”, a fonte pública, pequeno reservatório em pedra, de forma quadrangular, igual às ainda chamadas “Fontes de Mergulho”. Esta fonte era a abastecedora de água à população e, como já se disse, era vinda pelas caleiras de pedra, pelo arruado principal, desde o penhasco onde se situava a nascente. As habitações circulares, como alguns autores defendem, parece ter a sua origem na cultura da Idade do Ferro, célticas. No entanto há outros que admitem ser mais antiga, uma tradição indígena, anterior à chegada dos Celtas à Península. De um modo geral as casas da Citânia ( para mais de 200 ), como em quase todos os povoados castrejos, umas são de planta circular, outras rectangulares, com cantos interiores arredondados ou não, algumas elípticas, com aparelho de alvenaria grosso ou ainda com aparelho helicoidal. Quanto a esta última construção de grandes pedras, fixadas no terreno, em sistema helicoidal, julga-se ter sido um avanço no sistema de segurança, dado que a colocação de pedras fixas e em hélice cilíndrica ofereciam maior resistência às enxurradas.

 
 A argamassa de ligação entre elas, era constituída por barro ou terra. O pavimento interior, poucas vezes revestido de pedra, apresentava quase sempre uma camada de saibro recalcado e endurecido pelo uso. Ao centro um quadrado de pedra, com um entalhe, servia para fixar o prumo que iria sustentar a cobertura, talvez de colmo. Normalmente a casa era circundada por um empedrado, com alguma inclinação para o exterior, evitando deste modo a infiltração de águas das chuvas. Algumas apresentam pequenos anexos, recintos vedados que se supõe seriam lugares de pequenos estábulos, pois apresentam sinais de prisões de gado. Mais tarde e já em plena romanização é possível que a cobertura destas pequenas casas, que hoje mais poderiam ser apelidadas de cabanas, utilizariam a tégula, como se denominava a telha romana, pois são abundantes os restos de tégula e imbrex espalhados por todo o espaço do povoado. Algumas ruínas de casas circulares apresentam um traçado diferente, isto é aumentado por um vestíbulo que se vê na entrada, onde existiria uma porta de acesso a êste aumento, seguida de uma outra na parte circular. Em algumas nota-se uma laje, que pelo seu aspecto de queimada, deve ter sido utilizada para a lareira, e até em algumas construções postas a descoberto depois das escavações efectuadas por Martins Sarmento, revelaram o lugar destinado à lareira, constituído por alguns tijolos colocado no centro do pavimento circular. De notar que em algumas construções, em pequenos anexos vedados, que possivelmente serviriam de estábulos, se vêem embutidos nos muros, toscas prisões de pedra onde seriam presos os animais. Quanto à altura das paredes, Martins Sarmento, não chegou a uma conclusão, pois os restos das ruínas apresentam raramente mais que um metro. Seria que o resto do alçado seria composto inteiramente de pedra, ou seria que teriam um envasamento de pedra, resistente às enxurradas, e depois para cima completados por um intrincado acabamento de adobe de traves de madeira, barro, giestas e ramos encanastrados, onde surgiria a porta e uma janela de iluminação interior ? Esta é, ainda hoje, um género de construção usado por gerações de primitivos. Martins Sarmento confessa que ao idealizar e reconstruir as duas casas que no mapa estão assinaladas pelo nº 12, errou, dizendo em abono : “No que eu errei, com certeza, foi em dar às casas circulares reconstruídas uma altura igual ao seu diâmetro. Sem dúvida alguma eram mais baixas.” Sabe-se que tinham uma pequena soleira à entrada, pelo que concluímos, sem dúvida, que o pavimento interior, era mais elevado do que o arruado. Também resta uma dúvida e diz respeito cobertura dessas “humildes cabanas”. Seria de colmo, como foi a primeira impressão, ou usariam uma outra técnica, aplicando a argila sobre tectos planos, em terraços, assente em ramos entrelaçados ?  Do que não há dúvida, pelos restos de tégula e imbrex, profusamente espalhados, é que, após a romanização passaram muitas habitações, principalmente as rectangulares a utilizar este tipo de cobertura. Há também quem sugira, dado que, em algumas construções, a colocação das pedras base, estão inclinadas para o centro que a cobertura seria em forma cónica, ou fecho de falsa cúpula. A sul da Capela de São Romão, e junto à muralha interior, assinalada na planta com o nº14, notam-se as ruínas de uma grande construção circular, com assentos em toda a roda, que seria de utilização colectiva, talvez para a reunião dos anciãos que ali tomariam, tal como num Senado, as decisões importantes para o governo da povoação e seu território.

 
 Unida à criação artística, anda sempre reunida uma manifestação cultural. Temos, por exemplo, no Vale do Reis, no Egipto, as colossais estátuas dos antigos soberanos, os faraós, que aliando aos seus túmulos funerários, mandaram construir verdadeiras obras artísticas. Na Citânia, podemos ver duas ordens de monumentos, aos quais os seus habitantes ligavam certamente ideias religiosas. A gravuras rupestres e as esculturas e nestas distinguem-se os monumentos esculturados de carácter ornamental simbólico e os monumentos antropomorfos. Nos simbólicos temos como principal a Pedra Formosa, monumento que tem sido sujeito a várias interpretações. Uns julgavam-na uma pedra de ara ou sacra mensa ( objecto sagrado, mesa sobre a qual se faziam sacrifício rituais ), outros como a parte anterior ou fachada de um monumento funerário, um crematório (os povos primitivos, geralmente cremavam os cadáveres) e ainda estelas funerárias. A descoberta de outros monólitos idênticos, na sua apresentação à Pedra Formosa, (há pouco apareceu em Braga, nas escavações para a Estação do Caminho de Ferro um desses exemplares que está em exposição na cave, num feliz salvamento e reconstrução do monumento) parece tratar-se de facto da frontaria de um monumento funerário, um crematório. No entanto há outras opiniões o que nos leva a crer que se trata de uma inesgotável série de hipóteses, sem solução à vista. Na planta está assinalado com o número 17, o acesso ao monumento funerário. “Está situado na parte sul junto à estrada e à margem de uma das primitivas calçadas, no espaço compreendido entre a muralha média e a exterior.”(1) Um grande monólito, situado no terreno ao lado direito do arruamento principal, tem duas pequenas cavidades, que serviriam, segundo alguns historiadores, para colocar as cinzas dos cremados. A ser assim, poderemos também o classificar como um monumento funerário. Outras pedras de carácter simbólico, esculturadas, que se encontraram nas escavações, vêem-se a cruz suástica (símbolo muito antigo usado também pelos Cantabros e pelos Romanos), gravada ou vazada, sempre de braços curvos ou espira-lados, triskels e tetrásculos, muitas vezes aliados a outros símbolos. Esta última categoria, pode destacar-se a representação de um triskel junto a um sinal cruciforme, linhas da chamada cruz românica, de braços curvos. Estampa XX, nº 3, (1). Quanto a representação de figuras humanas, trabalhadas em pedra, só apareceram dois monumentos, mas muito toscos, e sobre gravuras rupestres limitam-se as representações na Citânia, a covinhas, espirais e círculos concêntricos.


Em 1971, dizia o estudioso Mário Cardoso, que “provenientes de Briteiros, são conhecidas actualmente 18 inscrições… Todas as inscrições apresentam um aspecto acentuadamente arcaico…absolutamente lacónicas, fugindo por completo, na sua rude simplicidade, às fórmulas consagradas na epigrafia, latina, funerária, laudatória ou votiva”. Assim o inculto gravador indígena ( continua Mário Cardoso), aprendendo com o invasor romano a desenhar os sinais das escrita, nunca conseguiu ocultar a imperícia do seu analfabetismo, dando origem aos limites da sua mentalidade bárbara. Algumas inscrições, constituem uma prova de que a romanização deste povoado ainda perdurou bastante tempo. Certas inscrições apresentam nomes pertencentes à antroponímia ibérica, como Câmalus, Aureius, Lárius, Canicus, etc. Outras, pelo menos duas, apresentam sinais, sem forma, desconhecidos.


 Nas escavações foram encontrados achados de diversos materiais, como instrumentos de pedra, ferro, bronze e vidro. Moedas também foram encontradas. Numerosas são as mós manuais que serviriam para triturar a bolota torrada, de que se fabricava pão. Pesos de redes da pesca fluvial, de teares, fusáiolas, cossoiros, lucernas, pedras polidas, alguns machados de pedra lascada e também polidos, este conservados como amuletos, pois desde a antiguidade que eram considerados como pedras de raio e como tal objectos talismânicos. Seixos rolados, provavelmente para serem utilizados como projecteis de fundas.

Vários fragmentos de cerâmica revelaram as escavações. Entre eles destacam--se os das vasilhas que apresentam variadíssimas formas e pastas, umas mais finas e outras mais grosseiras. Umas de elegantes perfis, como as ânforas, e outras fortes e de barro grosseiro, impregnado de grânulos de areia, mica             ( considerada cerâmica castreja ), e até alguns de cerâmica delicada, de paredes muito finas, talvez importada, e não de artesania local. Alguma desta apresenta desenhos ornamentais, confirmando a suspeição da importação : “mostrando alguns exemplares, pelo seu brilhante e uniforme verniz coralino, o fabrico extra-peninsular, de importação gaulesa ou itálica” ( Est. XXIV) –l. Também tem aparecido fragmentos de “ louça de barro esbranquiçado e quebradiço, com pintura vermelho-escura… talvez influenciada, ou proveniente mesmo, algumas estações ibéricas…”



 Entre os metais encontrados nas escavações contam-se utensílios de ferro, chumbo, estanho, cobre, a liga de bronze, a prata e até ouro. Grande parte delas destinavam-se a adornos pessoais, como as fíbulas ( fivelas ), contas de colar, delicado trabalho de filigrana em ouro, torques (colares), alfinetes de toucado, brincos, etc. Destacam-se ainda os objectos de uso doméstico, como uma machadinha de bronze, espetos de ferro, estes bastantes oxidados pelo que não é fácil determinar o seu uso, colheres, botões, uma charneira de um compasso, facas. Um pequeno punhal, etc. De utensílios de vidro, foram encontrados muitos fragmentos de várias cores, “tendo sido possível reconstituir, quase completa, uma formosa taça de um tom verde-claro, com nervuras exteriores, de um modelo frequente noutros meios lusitano-romanos.”(1) Por uma moeda de bronze encontrada e relativa ao período do Imperador Constantino Magno, pode talvez dizer-se que a Citânia de Briteiros, foi habitada pelo menos até ao século IV da nossa era. Parte do material recolhido nas sucessivas escavações, está à guarda do Museu Martins Sarmento, em Guimarães e na casa museu, em Briteiros.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Os Castros - Taramundi


Castro Taramundi (scar Cuadrado) Tags: espaa spain village asturias castro ruinas prehistoric prehistorico taramundi

Este povoado, conhecido como Os Castros, localiza-se em Taramundi. Boa parte da sua superficie manteve-se alheia ao desenvolvimento urbano deste municipio, se bem que a estrada que desce de Mazonovo causou a destruição de algumas habitações e parte da muralha. As escavações arqueologicas tiveram inicio no ano 2000.
O local foi reconhecido como povoado fortificado em 1969 por José Manuel González que o registou sob o nome de "El Castro". Localiza-se a uma altitude de 230-250 metros acima do nível do mar e estende-se sobre uma superfície de aproximadamente 2 hectares, sendo por isso um dos maiores castros catalogados nas terras interiores de Navia-Eo.
O castro está delimitado a norte por um profundo fosso cavado na pedra com escarpas que passam os 4 metros de profundidade e 6 de amplitude. Até ao momento foram exumados em diferentes graus até uma dúzia de edifícios organizados, uma sauna castreja, vários troços de estradas e fortificações de diferentes épocas deste povoado.As escavações revelaram uma ocupação de longa duração que se estende desde o final da idade do ferro até à época romana. Constata-se que a  presença romana começou a partir do século I d.C durando pelo menos até uma boa parte do séc. II.








Folheto turístico:  Descargar artículo  
Mais informação: Taramundi Arqueológico.

 Castro de Coaña

 

O Castelón de Villacondide é o mais popular castro de uns quantos conhecidos nas Astúrias. Esta notoriedade deve-se por as escavações estarem a ser feitas ao longo de quase 200 anos. As primeiras alusões literárias às ruínas e sua possivel origem remontam o século XIX, desde essa altura tem sido objecto de intervenções esporádicas que com mais ou menos sucesso tem contribuído para a sua reconstrução e para a sua conversão num paradigma iconográfico dos castros da idade do ferro.    
O Castrillón foi durante muito tempo objecto de curiosidade por parte de arqueólogos e caçadores de tesouros. Em 1818, foram autorizados trabalhos de investigação, cujos resultados são desconhecidos. Já em 1877, algumas pesquisas arqueológicas são iniciadas, realizadas com algum rigor por José Maria Florez, das quais se preservam os resultados da investigação na Comissão Provincial de Monumentos de Oviedo, além de cerâmicas diversas que foram depositadas no Museu Arqueológico Provincial.
 Nesses estudos descobriram uma série de cabanas  de um bairro urbano localizado a norte do forte. Muitos anos mais tarde, em 1940, Don Juan e Don Antonio Uria Riu Garcia Bellido, professores das universidades de Oviedo e Madrid, respectivamente, reiniciaram os trabalhos de escavação, atingindo um conhecimento mais amplo do Castro, o qual mapearam, fizeram reconstruções e reconheceram a  parte "sacra", a qual se supõe ter sido um monumento funerário.


Em 1958, o Serviço de Investigação Arqueológica da Província de Oviedo começou sob a direção de F. Jordá Cerdá um novo trabalho de investigação arqueológica, durante a qual foi concluída a escavação da parte norte, expondo a monumental porta  para a Acrópole, a descoberta de uma possível fornalha e uma piscina semi-elipsoidal assim como uma pluralidade de canais e cavidades associadas à mesma permitindo assim um conhecimento mais pormenorizado da zona "sacra".  
O Castrillón parece ter sido construído com o fim de vigiar e defender a passagem do rio Navia, que naquele tempo era realizada pelo Porto, talvez a porta original do estuário. Com a conquista romana, Coaña cresceu e passou a ser um sitio chave no que toca ao desenvolvimento de actividades mineiras de ouro que eram realizadas de ambos os lados da bacia do Navia. É possível que só após a conquista do castro pelos romanos, este tenha adquirido a sua actual estrutura defensiva, como o estudo revela que as muralhas e fortificações tem uma resistência rara e muito pouco característica  noutros Castros do Noroeste. Só nos últimos anos  se conseguiu encontrar alguns elementos que fizeram parte do forte original.
O carácter de vila fortificada é evidente a partir da disposição das partes construídas: o sistema de paredes com a Acrópole e a vizinhança da cidade que está ligado à parede exterior do mesmo. Estas partes também se juntam ao chamada "lugar sacro", um pequeno espaço com piscinas, cuja verdadeira função é ainda uma incógnita. Como cada uma dessas partes tem as suas estruturas próprias, devem ser estudadas separadamente.


Castro de Coaña. Itinerario de visita
Coaña foi construído sobre uma pequena colina e delimitado por fortes muralhas, á qual precede um fosso escavado na pedra em todo o seu perímetro; os escombros dos antigos muros ocultaram a presença desta trincheira até à recente descoberta na parte ocidental do caminho de acesso ao povoado.Nesse ponto (1) podem-se observar vestígios de duas casas do corpo de guarda que vigiavam a entrada do castro. Para evitar o piso escorregadio devido à humidade, a estrada foi pavimentada com ardósia disposta lateralmente (chapacuña).
O caminho leva-nos ao bairro norte, o único sector habitado do povoado onde se encontram vestígios de  mais de 80 cabanas, seguido de uma grande construção rectangular já em frente à porta da Acrópole, recinto fortificado que coroa a colina. Aí fica a torre (El torreón) (2), designação atribuída a uma grande plataforma erguida no bairro como uma torre de vigia e agora reinterpretado como espaço de representação social ou tribuna. A partir daqui, podem-se ver as ruelas e pequenas praças que compõem a organização urbana da cidade, construções predominantemente rectangulares com cantos arredondados e edifícios circulares com varandas rectas ou curvas (3). No seu interior encontraram-se algumas peças de uso doméstico, como moinhos de mão ou morteiros feitos em pedra de granito, exclusivos dos fortes que se situam nas margens do rio Navia (4). 


A parte mais singular deste povoado, é sem duvida o denominado recinto sacro (5). Perto da acrópole existe um pequeno terraço que se eleva acima do caminho de acesso. As ruínas eram na verdade dois edifícios similares que se caracterizavam por uma cúpula na câmara central, cabeçalhos semicirculares, uso do forno, canais talhados na rocha e uma enorme banheira esculpida em granito. Os prédios são como os característicos dos fortes do Noroeste da Península Ibérica (Portugal, Galiza e Astúrias). Por muito tempo foram interpretados como crematórios. Actualmente são interpretadas como saunas, os modelos mais antigos datam do século IV aC mas, preservaram-se com reformas até a época romana (século I dC).


Casa nas proximidades da torre

Casa circular com vestíbulo

Agrupamento de contruções

Zona de banhos
Pedra

Mais informação sobre o Inventario Arqueológico de Coaña
Mais informação sobre o Castro de Coaña

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O Castro de Santa Tegra 

 

O Castro de Santa Tecla (ou Castro de Santa Tegra) está localizado no extremo Sul Ocidental da Galiza, ao topo do Monte Santa Tecla na foz do rio Miño, área que pertence à "freguesia de Camposancos" na cidade de Pontevedra a uma altitude aproximada de 341 metros do nível do mar. Consideravelmente próximo a outros ajuntamentos castrejos (Castro de Forca, Castro de Cividans e Castro de Proba). O Forte foi descoberto casualmente durante a abertura de uma estrada até o cume do monte em 1913, período a partir do qual a Sociedade Pró-Monte tem se dedicado nas campanhas arqueológicas com o intuído de divulgar este que foi um dos primeiros castros conhecidos da Galiza.

Antiguo plano del castro de Santa Tecla hecho por Cayetano de Mergelina, durante las campañas que realizo entre 1928 a 1933, dividiendo el castro en grupos desde el 1 al 7.

Segundo autores clássicos como Plínio, Pomponio Mela, Appiano e Ptolomeu, o extremo sul da Galiza estaria povoado pela comunidade dos Grovii ou Grovios... Antônio de la Peña Santos considerava que devido as características lingüísticas compartilhadas, estes deveriam ser entendidos como povos oriundos de grupos de cultura céltica continental. De qualquer forma o estudo arqueológico demonstra que tratava-se de um povo de política igualitária, com carácter pacífico e economia agrária, condizente com o período de romanização pelo qual passava.

O Castro possuía um posicionamento estratégico para seus aldeões. Com uma área aproximada de 21.000 m2 distribuída entre a costa, braços de floresta, encostas e as margens do rio, a defesa, o cultivo e a pesca tornavam-se tarefas simples para aqueles que o ocupavam. Considerado um dos maiores castros tardios do Noroeste, sua efectiva ocupação corresponde provavelmente ao período de presença Romana na província.


Aparentemente, a área escavada da cidade desenvolveu um urbanismo caótico, verdade até certo ponto, já que se olharmos mas atentamente é possível perceber elementos racionais e comunitários, entre eles, praças e ruas estreitas (algumas de certa forma pavimentadas), escadas subindo as encostas, muros de contenção de terra e áreas para deposição de lixo... Que em conjunto demonstram ter existido um desenho urbano planeado - mesmo que primitivo.

[...] urbanismo indígena, constatando la presencia de un concienzudo y minucioso trabajo de planificación previo a la edificación del poblado. [Antonio de la Peña Santos, conduzindo a campanha de escavações de 1988]

São predominantes as construções circulares, ovais e quadradas (estas últimas possivelmente influenciadas pelo senso Romano). Assim como em todos os demais Castros encontrados no Noroeste, as habitações de Santa Tecla não possuíam janelas, a ventilação ocorria naturalmente pelas portas - decoradas com os elementos típicos da cultura castreja.

Entre os artefactos encontrados nos períodos de escavação estão os vasos de cerâmica, peças de vidro no estilo mosaico (consideradas entre as melhores encontradas na Península Ibérica), tabuletas de pedra esculpida, pedaços de vasos e facas de bronze. Outro achado foram os dois torques de chapas de ouro decorados com efeitos geométricos em triskel... Além de joalharia em pingentes, pulseiras, braceletes e anéis de bronze. O armamento encontrado limita-se a dardos de ferro, ponteiras de bronze, punhais de ferro e uma espada ferro, entretanto pelo período tardio, mais utilizados como elementos de distinção social do que propriamente como armas. Cita-se ainda uma suposta e desaparecida estátua de Hércules em bronze encontrada próximo ao século XIX nos arredores do santuário.

Representação de Roda em Pedra
Museu Arqueológico do Castro de Santa Tegra, Pontevedra
Torques de Ouro
Museu Arqueológico do Castro de Santa Tegra, Pontevedra



















Embora grande parte dos vestígios tenha as suas raízes em tempos remotos (como as diversas gravuras rupestres gravadas em rocha), o Castro em si provém de um período próximo ao final da primeira e segunda idades do ferro da região (entre os séculos II a.C. e II d.C.); Época em que já era possível notar as influências da cultura romana que aos poucos absorvia a Península Ibérica, apesar da ausência de dados estratigráficos, esta influência contrasta-se na arquitectura hoje visível.


Espiral, Castro de Santa Tegra, A Guarda, Pontevedra
VÁZQUEZ VARELA, José Manuel (1990) "Petroglifos de Galicia"
É claro e evidente que as gravações rupestres não tem ligação com o Castro, são fruto de uma sociedade que se desenvolveu no final do neolítico gallego (próximo à 2.000 a.C.)

As escavações iniciaram-se em 1914, estendendo-se à 1923, outra grande campanha denominada de "La Campaña de Mergelina" foi engendrada pela Universidad de Valladolid entre 1928 e 1933 período após o qual os serviços foram paralisados até 1979. Entre 1983 e 1988 uma equipe do Museu de Pontevedra dirigida pelo arqueólogo António de la Peña inicia novos trabalhos ao fim dos quais, definitivamente encerram-se as campanhas de escavação. No ano de 1996 o Conselho de Cultura anunciou à imprensa que iniciariam acções de aproveitamento sócio-cultural deste património, lançando um plano director para a recuperação do Castro, protecção de todo o monte e início de possíveis novas campanhas arqueológicas.


Fontes:
http://www.edu.xunta.es/contidos/premios/p2003/b/tegra/paginategra/Tegra/guia.htm
http://www.aguarda.com/museo/index.htm
http://es.wikipedia.org/wiki/Castro_de_Santa_Tegra
http://www.megalithic.co.uk/article.php?sid=6340630
BLOT, Maria Luísa B. H. Pinheiro. Os portos na origem dos Centros, Instituto Português de Arqueologia: Lisboa, 2003. ISBN 972-8662-11-4