Citânia de Briteiros
Situada em parte da freguesia de São Salvador de Briteiros, e na de S. Bento de Donim, do concelho de Guimarães, assentam as ruínas deste povoado primitivo, num esporão pertencente ao maciço horográfico que se destaca da Serra Amarela. O seu nome deve ter origem segundo o historiador vimaranense Alberto Sampaio, na antiga Villa de Briteiros, pois teria sido um Fundus Brittarius, designação derivada de Brittus, nome pessoal hispânico, portanto topónimo adquirido aquando da dominação romana. É conhecido também o lugar das ruínas por Monte de São Romão, por ter ali sido edificada, em tempos uma capela, da qual são visíveis ruínas junto do cruzeiro, documento e que “…constituem por ventura o testemunho da primitiva cristianização do lugar, na decadência do império romano”. Num documento do ano 1059, extraído do Cartulário “Livro de Mumadona”, é referida esta capela, que no entanto não é actual, viso que esta foi reconstruída em 1853. Junto ao alicerces visíveis da primitiva ermida, e em torno do cruzeiro, encontram-se algumas pequenas sepulturas que vem atestar a tese da cristianização, logo portanto posteriores às ruínas iniciais. Julga-se que este povoado deve datar, pelo menos de 5 séculos A.C. e era constituído por um grande povoado primitivo, fortificado, celtibérico, e que sendo romanizado, um oppidum (fortaleza), pertence ao “ tipo geral dos chamados castros do Noroeste da Península Hispânica”.
Há autores que distinguem entre castros e citânias, dando este último nome a cidades amuralhadas, com ruínas de habitações permanentes. Está neste caso as ruínas da povoação que estamos a tratar e não como as do próximo castro de Sabroso que seria, talvez, uma simples posição fortificada, sem vestígios de moradas, possivelmente, como hoje é vulgar dizer-se, “uma guarda avançada” de defesa à Citânia. Quanto aos seus primitivos habitantes, é tão obscuro determinar-se quem seriam, que nos devemos contentar, de um modo genérico, que talvez pertencessem ao grupo dos callaeci bracari ( galaico-brácaros). Parece que a estes primitivos, pela onomástica e pelas inscrições em que aparecem em alguns toponímicos de pessoas e deuses, alguns linguistas, também os tem apelidado de célticos, opinião que não é de desprezar pois sabemos que das nossas origens ancestrais faz parte o povo céltico que fundindo-se com os iberos, deram origem aos celtibéricos. No que, porém, geralmente admitido é que os variados povos desta região, provavelmente originários de um mesmo tronco pré-celta (ligures ?) que, no entanto se ignora qual fosse, estavam, politicamente divididos em tribos, normalmente constituídas por agrupamentos familiares, ou clans, cuja índole guerreira fazia com que frequentemente se gladiassem.
A filiação étnica dos Lusitanos ainda hoje, é um problema obscuro. Os Lusitanos aparecem pela primeira vez na história, como mercenários ao serviço dos Cartagineses de Aníbal no século III A.C. São várias as opiniões sobre o povo que outrora habitou a Citânia mas, aquela que mais se pode admitir, hipoteticamente, com fundamento em esquemas etnológicos parece que descenderia dos Draganos ou dos Oestrímnios, do Noroeste da Península, de raça Ligure, oriunda do Norte de África. (1) Abstraindo da questão ligúrica, a “pré-celticidade” do Lusitanos, defendida por Martins Sarmento, não podemos negar a cultura céltica que nesses povos deixou bem vincada a sua marca.
O povoado da Citânia tem na direcção N-S cerca de 250 metros de extensão
e cerca 150 no sentido E-O. Perto ou junto ao local onde está
implantada a Capela de São Romão, há um pequeno espaço quase plano com
cerca de 80 metros quadrados, onde estaria a necrópole do velho povoado.
A Citânia é cortada por duas ruas principais: uma que seria
possivelmente a entrada principal e que corre a meia encosta, no sentido
sul a norte, virando depois para Noroeste, pelo colo que separa os dois
outeiros em que situa o povoado; a outra, a poente, cuja direcção segue
pela crista do monte, pelo norte a sul, cruza com a primeira. De
largura variável, entre 2 a 2,5 metros, tem a via, norte-sul, ao seu
lado, caleiras de pedra, para o transporte de água, que nascendo num
aglomerado penhascoso, levava a preciosa linfa para uma fonte. Esta nascente hoje está extinta.
Outras vias secundárias, mais estreitas, por se perderem os vestígios,
não é possível estabelecer a ligação com as mútuas, mas desembocam em
pracinhas, algumas delas cuidadosamente pavimentadas, que dividem o
aglomerado populacional em vários quarteirões.A Citânia, era fechada, pelo aspecto actual, em três circuitos de muralhas, uma a sul, outra a poente e a terceira a norte, já que a nascente, o terreno íngreme, com um grande declive, era uma defesa natural. Hoje, há autores que dizem que provavelmente existiam mais duas muralhas. Mas o que é certo, é que só agora é possível, localizar três. Quem se dirige à Citânia, partindo do Bom Jesus, quilómetros andados, poucos, depara-se junto à estrada com uma e depois, visíveis, mais as duas. Cálculos, bastantes optimistas, dão como a sua altura máxima 5 metros. Quanto à espessura média, pelos vestígios, devia andar pelos 2 metros. A distância entre as muralhas, regulava entre os 30 metros, em certos pontos entre a exterior e a interior, mas a média podemos situá-la a cerca de 40. No entanto esta distância era irregular, pois em determinados locais chegava a atingir 100 metros. Para a construção foi utilizado um aparelho de pequenos blocos de granito, apesar de que junto a uma porta do lado poente, os blocos utilizados serem maiores. Citânia 2 A norte, o lado mais vulnerável da povoação, existia um outro muro, no sentido perpendicular à muralha exterior que contornando um pequeno outeiro, seria, certamente, uma muralha acessória ou “cortina avançada”.
Ao penetramos na Citânia, depois de ultrapassada a Casa do Guarda ( hoje foi substituída por outra construção ) pelo lado do SE, vamos deparar com “humilde monumento”, a fonte pública, pequeno reservatório em pedra, de forma quadrangular, igual às ainda chamadas “Fontes de Mergulho”. Esta fonte era a abastecedora de água à população e, como já se disse, era vinda pelas caleiras de pedra, pelo arruado principal, desde o penhasco onde se situava a nascente. As habitações circulares, como alguns autores defendem, parece ter a sua origem na cultura da Idade do Ferro, célticas. No entanto há outros que admitem ser mais antiga, uma tradição indígena, anterior à chegada dos Celtas à Península. De um modo geral as casas da Citânia ( para mais de 200 ), como em quase todos os povoados castrejos, umas são de planta circular, outras rectangulares, com cantos interiores arredondados ou não, algumas elípticas, com aparelho de alvenaria grosso ou ainda com aparelho helicoidal. Quanto a esta última construção de grandes pedras, fixadas no terreno, em sistema helicoidal, julga-se ter sido um avanço no sistema de segurança, dado que a colocação de pedras fixas e em hélice cilíndrica ofereciam maior resistência às enxurradas.
Unida à criação artística, anda sempre reunida uma manifestação
cultural. Temos, por exemplo, no Vale do Reis, no Egipto, as colossais
estátuas dos antigos soberanos, os faraós, que aliando aos seus túmulos
funerários, mandaram construir verdadeiras obras artísticas. Na Citânia,
podemos ver duas ordens de monumentos, aos quais os seus habitantes
ligavam certamente ideias religiosas. A gravuras rupestres e as
esculturas e nestas distinguem-se os monumentos esculturados de carácter
ornamental simbólico e os monumentos antropomorfos. Nos simbólicos
temos como principal a Pedra Formosa, monumento que tem sido sujeito a
várias interpretações. Uns julgavam-na uma pedra de ara ou sacra mensa (
objecto sagrado, mesa sobre a qual se faziam sacrifício rituais ),
outros como a parte anterior ou fachada de um monumento funerário, um
crematório (os povos primitivos, geralmente cremavam os cadáveres) e
ainda estelas funerárias. A descoberta de outros monólitos idênticos, na
sua apresentação à Pedra Formosa, (há pouco apareceu em Braga, nas
escavações para a Estação do Caminho de Ferro um desses exemplares que
está em exposição na cave, num feliz salvamento e reconstrução do
monumento) parece tratar-se de facto da frontaria de um monumento
funerário, um crematório. No entanto há outras opiniões o que nos leva a
crer que se trata de uma inesgotável série de hipóteses, sem solução à
vista. Na planta está assinalado com o número 17, o acesso ao monumento
funerário. “Está situado na parte sul junto à estrada e à margem de uma
das primitivas calçadas, no espaço compreendido entre a muralha média e a
exterior.”(1) Um grande monólito, situado no terreno ao lado direito
do arruamento principal, tem duas pequenas cavidades, que serviriam,
segundo alguns historiadores, para colocar as cinzas dos cremados. A ser
assim, poderemos também o classificar como um monumento funerário.
Outras pedras de carácter simbólico, esculturadas, que se encontraram
nas escavações, vêem-se a cruz suástica (símbolo muito antigo usado
também pelos Cantabros e pelos Romanos), gravada ou vazada, sempre de
braços curvos ou espira-lados, triskels e tetrásculos, muitas vezes
aliados a outros símbolos. Esta última categoria, pode destacar-se a
representação de um triskel junto a um sinal cruciforme, linhas da
chamada cruz românica, de braços curvos. Estampa XX, nº 3, (1).
Quanto a representação de figuras humanas, trabalhadas em pedra, só
apareceram dois monumentos, mas muito toscos, e sobre gravuras rupestres
limitam-se as representações na Citânia, a covinhas, espirais e
círculos concêntricos.Nas escavações foram encontrados achados de diversos materiais, como instrumentos de pedra, ferro, bronze e vidro. Moedas também foram encontradas. Numerosas são as mós manuais que serviriam para triturar a bolota torrada, de que se fabricava pão. Pesos de redes da pesca fluvial, de teares, fusáiolas, cossoiros, lucernas, pedras polidas, alguns machados de pedra lascada e também polidos, este conservados como amuletos, pois desde a antiguidade que eram considerados como pedras de raio e como tal objectos talismânicos. Seixos rolados, provavelmente para serem utilizados como projecteis de fundas.
Vários fragmentos de cerâmica revelaram as escavações. Entre eles destacam--se os das vasilhas que apresentam variadíssimas formas e pastas, umas mais finas e outras mais grosseiras. Umas de elegantes perfis, como as ânforas, e outras fortes e de barro grosseiro, impregnado de grânulos de areia, mica ( considerada cerâmica castreja ), e até alguns de cerâmica delicada, de paredes muito finas, talvez importada, e não de artesania local. Alguma desta apresenta desenhos ornamentais, confirmando a suspeição da importação : “mostrando alguns exemplares, pelo seu brilhante e uniforme verniz coralino, o fabrico extra-peninsular, de importação gaulesa ou itálica” ( Est. XXIV) –l. Também tem aparecido fragmentos de “ louça de barro esbranquiçado e quebradiço, com pintura vermelho-escura… talvez influenciada, ou proveniente mesmo, algumas estações ibéricas…”
Entre os metais encontrados nas escavações contam-se utensílios de ferro, chumbo, estanho, cobre, a liga de bronze, a prata e até ouro. Grande parte delas destinavam-se a adornos pessoais, como as fíbulas ( fivelas ), contas de colar, delicado trabalho de filigrana em ouro, torques (colares), alfinetes de toucado, brincos, etc. Destacam-se ainda os objectos de uso doméstico, como uma machadinha de bronze, espetos de ferro, estes bastantes oxidados pelo que não é fácil determinar o seu uso, colheres, botões, uma charneira de um compasso, facas. Um pequeno punhal, etc. De utensílios de vidro, foram encontrados muitos fragmentos de várias cores, “tendo sido possível reconstituir, quase completa, uma formosa taça de um tom verde-claro, com nervuras exteriores, de um modelo frequente noutros meios lusitano-romanos.”(1) Por uma moeda de bronze encontrada e relativa ao período do Imperador Constantino Magno, pode talvez dizer-se que a Citânia de Briteiros, foi habitada pelo menos até ao século IV da nossa era. Parte do material recolhido nas sucessivas escavações, está à guarda do Museu Martins Sarmento, em Guimarães e na casa museu, em Briteiros.


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